Ruy Castro faz história e domina o Prêmio Jabuti 2026

A 68ª edição do Prêmio Jabuti agitou a Sala São Paulo na noite de terça-feira, 27 de outubro. Com cinco finalistas disputando cada uma das 23 categorias, a noite consagrou nomes veteranos e apostas certeiras da nova literatura brasileira.
O grande destaque foi Ruy Castro, que conseguiu algo inédito na história do prêmio: vencer a categoria de melhor livro do ano por dois anos consecutivos. Dessa vez, a vitória veio com o livro-reportagem Trincheira Tropical, obra que analisa como a Segunda Guerra Mundial impactou a vida dos cariocas e a participação deles no conflito na Europa. No ano passado, o autor já tinha levado o troféu por sua coletânea de crônicas sobre Tom Jobim.
O escritor, que é membro da Academia Brasileira de Letras, não compareceu à cerimônia em São Paulo, já que mora no Rio de Janeiro. Ele foi representado por Camila Berto, sua editora na Companhia das Letras. A coincidência do dia foi total, já que a vitória aconteceu exatamente no aniversário de 40 anos da editora, que tem em Castro seu autor mais publicado desde o clássico Chega de Saudade, lançado em 1990. Vale lembrar que ele já tinha vencido o Jabuti há 30 anos com a biografia Estrela Solitária, sobre Mané Garrincha, e também foi o melhor romancista literário em 2023 com Os Perigos do Imperador.
Os romances e a força da literatura negra
Outra vitória pesada da noite foi a de Eliana Alves Cruz, com o livro Meridiana, eleito o melhor romance literário do ano. A obra, também da Companhia das Letras, foca na ascensão social de uma família negra que sai da periferia para morar em um condomínio, explorando as mudanças de perspectiva e o racismo através dos olhos ácidos de Meridiana, a filha caçula. Eliana já tinha sido premiada há quatro anos por A Vestida, mas agora venceu em uma categoria competitiva que incluía nomes como Milton Hatoum e Itamar Vieira Junior.
No segmento de romance de entretenimento, quem levou a melhor foi o baiano Ian Fraser com Cartografia para Caminhos Incertos, da editora Intrínseca. O autor trouxe a política para o palco ao subir aos gritos de viva a democracia, vestindo uma camiseta vermelha com a imagem do presidente Lula.
Poesia, quadrinhos e as surpresas da noite
Na poesia, o troféu de melhor livro do ano foi para Boris e Marina, de Alberto Martins. A obra parte de cartas reais trocadas há um século pelos poetas Boris Pasternak, Marina Tsvetáieva e Rainer Maria Rilke entre Rússia, França e Suíça. Já a categoria de melhor poeta estreante ficou com a multiartista goiana Juliana Cajives, radicada em Salvador, que venceu com História a que Ninguém Deu Nome. Em romance de estreia, venceu Pitangas Verdes, de Mariana Lobato Botter, lançado pela independente Labrador.
Luckas Iohanathan garantiu seu segundo título em histórias em quadrinhos com Ouroboros, da Comix Zone, repetindo o sucesso que já tinha conquistado dois anos atrás com o livro Como Pedra. No campo dos contos, a surpresa foi o estreante Abáz, professor e escritor baiano, que venceu com Massaranduba, livro que retrata a periferia de Salvador e superou veteranos como João Anzanello Carrascoza e Andréa Del Fuego.
Tecnologia, influenciadores e livros para crianças
O Jabuti também olhou para a cultura digital. O jogador do Atlético Mineiro, Gustavo Scarpa, que viralizou nas redes sociais ao indicar livros como A Morte de Ivan Ilitch, apresentou o prêmio de incentivo à leitura. O vencedor foi Pedro Pacífico, o Bookster, que soma mais de um milhão de seguidores no Instagram.
Na parte de economia criativa, a engenheira Martha Gabriel venceu com A (R)Evolução das Habilidades para o Futuro do Trabalho na Era da Inteligência Artificial. No mundo infantil, Leo Cunha e Raquel Matsushita levaram o prêmio com A Letra, enquanto a editora FTD venceu na categoria juvenil com A Única da Sala, de Tathyana Viana, que discute a identidade racial de uma garota.
Outros destaques e reconocecimentos
O prêmio de melhor cronista ficou com Humberto Werneck por Viagem no País da Crônica. Já na categoria de artes, venceu o livro sobre Abdias do Nascimento, escrito por Tulio Custodio. A editora Todavia ainda comemorou a vitória do psicanalista Paulo Schiller em saúde e bem-estar com A Paixão pela Mentira, ensaio que analisa a política, a masculinidade e o autoritarismo nos laços familiares.
Para fechar a lista de premiados, o educador Mario Sergio Cortella foi reconhecido na categoria de negócios. Bernardo Carvalho também levou um troféu pelo livro Os Substitutos, que foi eleito o melhor livro brasileiro publicado no exterior em sua versão francesa.
O Prêmio Jabuti, criado em 1959 por Edgard Cavalheiro e concedido pela Câmara Brasileira do Livro, segue como a honraria mais tradicional da nossa literatura, premiando desde autores e editores até ilustradores e livreiros.
Será que a gente consegue ler metade desses livros ou eles vão ficar pegando poeira na estante só porque ganharam prêmio?
