Luciana Vendramini abre o jogo sobre a realidade de ser atriz e a importância de ter um 'plano B'

Luciana Vendramini decidiu não ficar esperando o telefone tocar para conseguir trabalho. A atriz e ex-modelo brasileira, que marcou época em novelas como Vamp e Rei do Gado nos anos 1990, revelou que a carreira artística no Brasil tem armadilhas que exigem jogo de cintura e, principalmente, estratégia para sobreviver a longo prazo.
O conselho do pai e a vida real
A base para a visão de negócios de Luciana veio de um conselho do pai, que sempre insistiu que ela tivesse um plano B. Segundo a atriz, o pai alertava que, enquanto uma advogada teria milhões de escritórios para buscar oportunidades, a profissão de ator oferece poucas opções. Essa mentalidade ficou marcada na cabeça dela desde que saiu de casa para fazer a carreira acontecer.
Para Luciana, a realidade do mercado é cruel: quando o artista é a novidade do momento, o telefone não para de tocar, como aconteceu com ela no início. No entanto, depois que esse status de novidade acaba, a carreira passa a depender quase totalmente de amizades e das relações com produtores, autores e diretores. Ela explica que, se você não está nesse círculo, a situação fica difícil, já que, ao tentar abordar um diretor, praticamente todo o Brasil está fazendo o mesmo.
Empreendendo na cultura
Seguindo a lógica de não depender apenas de convites, Luciana fundou a Axon Content, produtora cultural que já tem 18 anos. Ela relembra que, no início, vender ideias era muito mais complexo, pois não existiam os streamings, as plataformas digitais ou as TVs a cabo como conhecemos hoje. A transição do analógico para o digital aconteceu em uma época em que a carreira era vivida de forma mais natural, sem ser tão projetada ou calculada.
Um marco importante aconteceu em 2010, quando ela escreveu um projeto sobre as mulheres do cinema brasileiro. Após pesquisar mais de duas mil mulheres e formatar a ideia, a oportunidade surgiu com a lei que determinava que a TV a cabo deveria ter 30% de conteúdo brasileiro. A produtora de Luciana foi uma das primeiras a negociar com canais como Warner, Sony e Fox, e o projeto sobre as mulheres foi o primeiro a ser vendido, resultando em 40 documentários com formato dinâmico.
Novos braços e o legado de Marília Mendonça
Há um ano e meio, a atriz expandiu seus negócios com a criação da Axon Cultural. Este braço da empresa é focado em livros, exposições, cinema, musicais e peças de teatro, realizando um sonho antigo. Um dos projetos atuais é a exposição Marília Mendonça – Sentimento Louco, que está em cartaz no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo.
Luciana defendeu a criação da exposição como parte essencial do legado da cantora, além de documentário, filme e série. Para ela, Marília Mendonça rompeu o perfil sertanejo da geração anterior ao apresentar uma postura empoderada de mulheres jovens que bebem cerveja com amigos de igual para igual e mandam a real.
Projetos pessoais e saúde mental
Além da gestão cultural, Luciana segue atuando e obteve os direitos de uma peça de comédia de Lars Von Trier, na qual irá trabalhar. No lado pessoal, a artista foca em conscientizar sobre o transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Ela foi uma das primeiras figuras públicas a falar sobre o diagnóstico, em uma época em que, nas palavras dela, "ninguém sabia o que era o TOC, nem eu mesma".
Agora, Luciana prepara um documentário e um livro sobre o TOC. Ela deixa claro que as obras não serão de autoajuda superficial nem terão uma abordagem cor-de-rosa, focando na realidade do transtorno. Ao analisar sua trajetória, a atriz afirma que não tem arrependimentos e que seu pai reconhece seu esforço por ter construído uma carreira batalhadora e sem escândalos pejorativos.
Quem nunca precisou de um plano B pra não surtar com a vida profissional, né?
