Jamiroquai no Rock in Rio: o groove atemporal que fez pais e filhos largarem o k-pop pra dançar

No meio de um Rock in Rio que fervia com a febre do k-pop, o Jamiroquai apareceu como um raio de nostalgia e groove puro. Na sexta-feira (11), a banda britânica pode ter parecido meio perdida no line-up, tocando no Palco Sunset logo antes do headliner Stray Kids subir ao Palco Mundo. Mas a gente já te adianta: foi um deslocamento de mestre.
Foi a segunda vez que o Jamiroquai pisou no festival, 15 anos depois da última, e eles chegaram pra mostrar que bom som não tem data de validade. A concorrência era desleal: do outro lado do festival, as fiéis stays — como são chamadas as fãs do Stray Kids — já se aglomeravam pra ver seus ídolos. Com isso, o Sunset acabou virando um espaço curioso: estacionamento de pais, sim, mas com alguns filhos que acabaram se rendendo ao balanço da banda. E o mais chocante? Zé Ricardo, curador do festival, confirmou que essa era exatamente a intenção. Gênio, brincalhão ou os dois ao mesmo tempo — a gente aposta nos três.
Uma viagem no tempo e no groove
Pra quem não pegou a onda dos anos 90, o Jamiroquai era sinônimo de coisa descolada e moderna, com álbuns icônicos como "Return of the Space Cowboy" (1994) e "Traveling Without Moving" (1996). Com o tempo, o grupo se tornou a trilha sonora obrigatória de quem era jovem naquela década — e no Rock in Rio isso ficou evidente: a média de idade do público no Sunset era visivelmente mais adulta que a multidão reunida no Palco Mundo. A sorte, meus amigos, é que um bom groove é atemporal. Até as crianças, que provavelmente foram arrastadas pelos pais sem direito a voto, acabaram se jogando na dança.
E não é difícil entender por quê. A fórmula mágica do acid jazz do Jamiroquai é uma mistura irresistível: funk, soul e disco com uma pitada eletrônica que vai do house ao hip-hop. Baixo inquieto, percussão apertada, teclados que brilham — não tinha uma alma parada na plateia. É o tipo de música que ignora a sua resistência e move o seu corpo antes que o seu cérebro perceba o que aconteceu.
Jay Kay, hoje com 56 anos, mostrou que os vocais estão melhores que na última década. Mandou ver em faixas como "Don't Give Hate a Chance" e "Alright" com uma energia que parecia saída direto do estúdio. E claro, não podia faltar a coleção de adereços de cabeça que são a marca registrada dele. Tem coisa que simplesmente não muda — e ainda bem.
Espontaneidade no palco
Mesmo com mudanças na formação ao longo dos anos, o núcleo da banda está firme desde a virada dos anos 90 e 2000: Derrick McKenzie na bateria, Rob Harris na guitarra, Matt Johnson nos teclados, Paul Turner no baixo e Sola Akingbola na percussão e backing vocal. Essa galera fez tudo soar azeitado, mostrando que tirar os grandes sucessos de letra é fichinha pra eles. Além do núcleo, a banda conta com um trio de cantoras talentosas, um percussionista brasileiro e outras ótimas adições — e todo mundo gosta de brincar um pouco antes de revelar qual clássico vem a seguir, o que sempre rende uma boa reação da plateia.
Há ainda um burburinho rolando sobre um álbum novo no horizonte. Se a qualidade for essa que a gente viu no Rock in Rio, pode vir que a gente aceita de braços abertos.
Com luzes e visuais psicodélicos que transformaram o Palco Sunset numa pista de dança de primeira, Jay Kay dançou do jeito dele — meio esquisito, sem vergonha de ser travado —, foi até a galera e se remexeu à vontade ao cantar "Cosmic Girl". Num dia repleto de bailarinos exímios e coreografias milimetricamente ensaiadas — oi, k-pop! —, o Jamiroquai representou algo diferente: a liberdade, a espontaneidade, o balanço que não precisa de roteiro pra funcionar. Porque no fundo a gente sabe que quando o tecladista solta os primeiros acordes de "Virtual Insanity", não tem pra ninguém.
