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Milo J defende a real: 'a Argentina é marrom' e vem agitar o Brasil

Milo J não chegou à cena musical latino-americana pela porta da fama fácil. Camilo Joaquín Villarruel cresceu em Morón, periferia de Buenos Aires, e começou a fazer som em casa ainda na adolescência, partindo do trap e do rap como ponto de partida — não de chegada. O alcance global veio com o Tiny Desk, programa de apresentações da rádio americana NPR, onde o artista interpretou faixas do álbum mais recente, La Vida Era Más Corta (2025), e mostrou que estava falando de coisas muito maiores do que batidas e rimas.

Agora, aos 19 anos, ele desembarca no Brasil para estrear ao vivo por aqui: primeiro no palco Supernova do Rock In Rio, no sábado (12), e depois em São Paulo, na Audio, no domingo (13) e na terça (15), como parte do festival Mucho! Ciudad Sonora. Ingressos acabando — e o aviso não é publicidade, é informação útil.

A cor que ele escolheu para se definir

Antes de falar do disco, vale entender o que Milo J quer dizer quando diz que é marrom. Não é uma categoria racial simplificada: é uma afirmação de identidade que abraça a diversidade de povos, a presença indígena, mestiça e não branca que constitui o continente — e que muita gente ainda prefere varrer para debaixo do tapete. "Já disse várias vezes que eu sou marrom, a Argentina também é marrom e a América Latina é marrom. Vejo isso nas pessoas, nos bairros, na terra, na história e na música", ele explica.

Essa consciência não nasceu de uma tese acadêmica. Ela tem endereço: Santiago del Estero, no norte argentino, de onde vem parte de sua família. Foi pra lá que Milo J viajou antes de começar a produzir o álbum. "Eu não vivi isso tanto como uma pesquisa musical, mas como uma busca pessoal. Lá, entendi muitas coisas que não tinham a ver apenas com a música, mas também com as minhas raízes e com a minha forma de enxergar a vida." Dessa viagem saíram as chacareras, as zambas, os carnavalitos — ritmos que ele trouxe de volta não como souvenir folclórico, mas como material vivo.

Um disco que recusa prateleiras

La Vida Era Más Corta tem 15 faixas divididas em duas partes: onze na primeira, quatro na segunda. A estrutura já avisa que não é um projeto de streaming pensado para playlist aleatória — é um disco com arco, com intenção. "É um disco onde convivem todas as coisas que ouvi e vivi", resume o artista, e a frase é menos clichê do que parece quando você escuta o que está dentro.

A abertura, Bajo de la Piel, chega com elementos do folclore argentino e define o tom antes mesmo de o ouvinte perceber: tradição e sonoridade contemporânea não estão em disputa aqui, estão em conversa. Niño vai fundo em tema delicado — perda, memória, a presença de alguém que já foi — mas sem se perder no sentimentalismo fácil. "À primeira vista, ela parece uma canção de ninar, mas, à medida que avança, revela outra história. A música pode soar triste, mas, para mim, a mensagem é o contrário. É sobre aprender a abraçar tudo o que vivemos sem ficar preso apenas à dor", diz Milo J.

A conexão com o Brasil aparece em Recordé, que usa um canto de uma cerimônia de umbanda gravada aqui. Milo J é direto sobre o cuidado que isso exigiu: "Fizemos isso com muito cuidado e respeito, entendendo que não era apenas um som bonito para usar como sample, mas algo com um significado espiritual e cultural muito profundo." Não é disclamer de relações públicas — é a mesma lógica que atravessa o disco inteiro: nada é usado por acaso, nada é decoração.

Já Solifican12 torna explícita a ideia central do projeto. É ali que a letra diz: Moreno cor de barro que aprendeu a viver com nada e, com um pouco, já tem tudo. "Nunca senti que 'marrom' precisasse ser um insulto. Quis que todo o universo do disco refletisse isso. O marrom da terra, do metal desgastado, da chapa enferrujada, das coisas que carregam história. Da música à estética, tudo nasce desse mesmo lugar", afirma o cantor.

O que o Bad Bunny abriu e Milo J atravessou

Milo J não é ingênuo sobre o contexto em que aparece. A cultura latino-americana vive um momento de projeção internacional real, em parte impulsionado pelo porto-riquenho Bad Bunny, que levou o álbum Debí Tirar Más Fotos (2025) ao topo das paradas e foi atração do intervalo do Super Bowl em fevereiro — um dos eventos de maior audiência dos Estados Unidos. O argentino reconhece o peso disso sem perder o próprio eixo: "O que o Bad Bunny fez me parece muito valioso. É um artista com um alcance enorme que decidiu colocar o foco na própria identidade, na própria cultura e nos sons que o representam. Isso me inspira muito mais pela atitude do que pela parte musical."

A distinção importa. Milo J não está surfando numa onda — ele está falando de Santiago del Estero, de chacareras e de umbanda porque é o que faz sentido para ele. "Nunca pensei nisso como um debate para fazer em cima de um palco. Se isso também convida as pessoas a olharem de outra forma para as nossas raízes ou a falarem sobre coisas que muitas vezes ficam invisibilizadas, sejam muito bem-vindas."

Com visão clara e um som que costura tradição e modernidade sem pedir licença, Milo J já é realidade — não promessa. Bora nessa?

Com informações de fontes públicas, Wikipédia, YouTube, Instagram e TikTok.