João Gomes domina o Rock in Rio e prova que piseiro também tem a senha do festival

Se alguém ainda duvidava que João Gomes tinha a senha pra conquistar o Brasil, o Rock in Rio desse sábado (12) veio pra esfregar na cara de todo mundo que o piseiro chegou pra ficar. Depois de ganhar o coração de estrelas da MPB e se tornar o cantor mais ouvido do país em 2021, o pernambucano voltou ao festival não só pra se apresentar, mas pra abrir as portas do forró de um jeito que só ele consegue: com um cortejo digno de Carnaval e uma orquestra que misturou o Brasil do começo ao fim.
Pra entender o tamanho do salto, vale lembrar de onde veio. A primeira vez de João no Rock in Rio foi lá em 2022, num palco promocional, ao lado de Pedro Sampaio. Ele mesmo admitiu que, naquela época, considerava praticamente impossível imaginar o piseiro ocupando um dos palcos principais do festival. Em pouco tempo, a carreira virou do avesso — no melhor sentido possível. O artista que era a grande aposta do piseiro foi se tornando, tijolo por tijolo, o queridinho do Brasil: cantou com Roberto Carlos, gravou com Gilberto Gil, recebeu elogios de Caetano Veloso, entrou em estúdio com Marisa Monte e ainda criou o projeto Dominguinho ao lado de Jota.Pê e Mestrinho. No meio do caminho, um Grammy Latino. Ou seja, ele não veio pra brincar.
Mas João Gomes não ia subir no palco sem antes fazer uma entrada que o público não esquece tão cedo. O show começou antes mesmo de ele pisar no Palco Sunset. Enquanto J Balvin agitava o Palco Mundo, João reuniu um cortejo que transformou o Rock in Rio num Carnaval fora de época: estandartes, O Homem da Meia-Noite, a chave de Cariri — aquela que abre a festa em Pernambuco —, o Boi da Macuca, pernas de pau e bonecos de Olinda representando o próprio João, Chico Science e Gonzagão. A orquestra de frevo acabou se misturando ao som pop que vazava dos estandes de marca ao redor, o que deu uma pequena quebra no clima — mas nem isso segurou a galera. Quem estava sentado esperando outro show se levantou. Quem pretendia ir para o Palco Mundo ficou. Afinal, não é todo dia que o Rock in Rio vira uma festa de rua nordestina.
Depois de pouco mais de uma hora de cortejo, João finalmente subiu ao Palco Sunset, com alguns minutos de atraso — quem nunca? —, ao som de um solo de guitarra arrepiante de "Eu tenho a senha". A Orquestra Brasileira que o acompanhava era coisa de outro nível: violinos, violas, flautas e violoncelos se misturando a pífanos de Caruaru e tambores do Maranhão. Uma costura que só o Brasil sabe fazer, e que João soube conduzir sem perder a leveza, a simpatia e os improvisos que fazem dele quem ele é. Até uma falha técnica nas caixas de som do lado esquerdo virou detalhe — a empolgação não baixou, e a galera não parava de comentar que nunca tinha visto o Sunset tão cheio.
O show ainda trouxe o projeto Dominguinho com Mestrinho e Jota.Pê. "Lembrei de nós" e "Arriadin por tu" emocionaram todo mundo, mas a emoção de verdade veio quando João foi surpreendido pelo abraço de Mestrinho, que minutos antes ainda estava se apresentando em outro palco. Ele não segurou as lágrimas e disse, derretendo corações: "Ensaiei tanto pra você me fazer chorar assim, faz isso, não".
O set ainda homenageou compositores nordestinos com um medley de "Confidências", "Anjo Querubim" e "Ai, Que Saudade D'Ocê", chamou o maestro pernambucano Spok para dividir o vocal em "Frevo Mulher", de Zé Ramalho, e encerrou com dois sucessos de Assisão — "As quatro estações" e "Fogueirinha" —, transformando o Sunset numa festa junina de respeito. "Meu pedaço de pecado" e "Mete um block nele" também passaram pelo setlist.
No palco, João citou algumas vezes que mal acreditava estar ali e que estava, nas palavras dele, "possivelmente, fazendo algo muito importante para o nosso forró". A gente concorda. Lá em 2022, ele entrou pela porta dos fundos. Nesse sábado, ele abriu o portão principal e convidou o Brasil inteiro pra entrar. Ele tem a senha, sim. Viva, João.
