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"Vicentina Pede Desculpas": o filme brasileiro que chegou em Toronto de olho no Oscar

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"Num dia como qualquer outro, um ônibus cai de um viaduto, matando o motorista e quase todos os passageiros." Calma — não é manchete de jornal, é o soco no estômago que abre "Vicentina Pede Desculpas", o novo longa de Gabriel Martins que estreou no Festival de Toronto e já colocou o Brasil no mapa do cinema autoral internacional. A personagem-título é a mãe do motorista morto no acidente, e ela toma uma decisão que poucas pessoas teriam coragem de cogitar: vai, uma por uma, pedir desculpas pessoalmente às famílias de todas as vítimas. Prepare o lencinho — mas também os neurônios, porque o filme não facilita.

Vivida por Rejane Faria, a Vicentina é assombrada por imagens do acidente que surgem com uma estranheza quase artificial, como se fossem cenas de um filme de ação se repetindo em loop dentro da cabeça dela. Ao mesmo tempo, tenta expurgar a culpa pelas ações do filho — que, aliás, ninguém consegue dizer ao certo se foram ou não premeditadas. Essa ambiguidade não é descuido do roteiro: é o motor da tensão. Na jornada de Vicentina, há quem ache que ela não tem nada com que se desculpar, e há quem aproveite o encontro para despejar toda a raiva acumulada. Não dá para saber o que vem pela frente — e essa imprevisibilidade é exatamente o que prende.

Martins é o mesmo diretor do aclamado "Marte Um", conhecido por dividir a narrativa entre vários protagonistas e capturar a complexidade das relações humanas em camadas. Em "Vicentina", ele faz o movimento oposto: vira o laser para uma única figura e deixa a câmera demorar nos espaços vazios da casa escura da protagonista, nas cenas longas em que a solidão fala mais alto do que qualquer diálogo. A melhor amiga aparece, a busca pelas famílias avança, mas é o silêncio que assombra.

Esse foco exclusivo numa personagem deu a Rejane Faria tempo e espaço para habitar um corpo que não é o seu — Vicentina é dez anos mais velha que a atriz. O processo começou pela caracterização física: manchas incorporadas ao rosto, imperfeições reforçadas, até que a transformação exterior abrisse caminho para a interior. O resultado foi tão intenso que, ao ver a primeira foto de divulgação do filme, Faria ficou em choque. "Não pude acreditar no que havia feito", disse ela.

A história tem raízes pessoais. Martins conta que o projeto foi inspirado, entre outras vivências, na morte de sua avó Vicentina, que ele perdeu quando tinha 12 anos. O choque entre a dor individual e o luto coletivo, e a alienação que se instala especialmente em períodos de turbulência política — "como o que vivemos agora no Brasil", nas palavras do próprio diretor —, foram motores centrais do filme. Dentro da trama, essa tensão se materializa também na imprensa: os noticiários invadem a casa de Vicentina pela TV e a fazem questionar a índole do próprio filho, enquanto a mídia tenta diagnosticar a tragédia com depoimentos de quem conhecia o motorista. É uma crítica afiada sobre como tragédias viram conteúdo — e o que isso faz com quem está no olho do furacão.

A estreia aconteceu na mostra Platform de Toronto, a única seção competitiva do festival, dedicada a produções de artistas internacionais em evidência no cinema autoral. Martins admitiu que ficou de olho nos gestos e barulhos da sala durante a primeira exibição, tentando medir a reação de uma plateia de estrangeiros numa sala quase lotada. O filme ainda tem outras sessões no festival ao longo da semana.

Produzido pela Filmes de Plástico, produtora de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, "Vicentina Pede Desculpas" é a primeira parceria da empresa com a Netflix. Chega aos cinemas brasileiros em 5 de novembro e ao streaming em 20 de novembro. O produtor Thiago Macêdo Correia resume a filosofia da casa: "Seja um filme que fizermos numa salinha, seja um filme que exigir 5.000 figurantes, vamos sempre tentar seguir com a marca da independência."

E o Oscar? O filme está na lista de pré-selecionados da Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar de 2027, ao lado de "Nosso Segredo", "100 Dias", "A Natureza das Coisas Invisíveis", "A Fabulosa Máquina do Tempo" e "Feito Pipa". O escolhido seria anunciado na quarta-feira (16). Mas há um caminho extra: se vencer a mostra Platform — resultado previsto para o dia 20 —, o longa se torna automaticamente elegível ao prêmio, graças a uma nova regra da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas que abre a disputa para filmes internacionais vencedores de grandes festivais, além dos representantes oficiais de cada país.

O cinema brasileiro não está pedindo desculpas por nada. Está exigindo atenção.

Com informações de fontes públicas, Wikipédia, YouTube, Instagram e TikTok.