Calvin Harris no Rock in Rio: entre a chuva, o funk e o dilema do headliner DJ

No meio daquele aguaceiro típico do Rock in Rio, Calvin Harris subiu ao Palco Mundo com uma missão que nenhum DJ havia cumprido antes no festival: encabeçar a noite no palco principal. Não é pouca coisa. Estamos falando de um cara que já foi apontado pela Forbes como o DJ mais bem pago do mundo em 2013 e em 2014, acumula um Grammy e seis indicações ao prêmio, e construiu uma carreira inteira de parcerias com alguns dos maiores nomes da música pop — Rihanna, Dua Lipa, The Weeknd, Pharrell Williams, Frank Ocean e Travis Scott. O escocês Adam Richard Wiles chegou ao Palco Mundo com bagagem pesada. A questão era se a plateia ia aguentar a chuva até o fim.
Chuva, hinos e um palco encharcado
O setlist foi uma viagem certeira pelos hits que fizeram de Calvin Harris um nome incontornável na música eletrônica mundial. Ele tocou "This Is What You Came For", parceria com Rihanna — a mesma que lhe rendeu o Grammy por "We Found Love" —, "One Kiss", com Dua Lipa, e "How Deep Is Your Love". O pico emocional da noite ficou por conta de "Feel So Close", que arrancou do público aquele canto coletivo de plenos pulmões que só acontece quando a música acerta em cheio. Debaixo de chuva, encharcados, todo mundo cantando junto: é difícil negar que tem algo de especial nisso.
E porque o homem sabe o que está fazendo, ele ainda meteu um funk no meio do show como forma de homenagear o Brasil. Nos telões, a bandeira brasileira foi projetada e a galera respondeu aos gritos. Não é só um truque de palco: Calvin Harris não é novidade por aqui. Em fevereiro, ele já tinha se apresentado num bloco de Carnaval em São Paulo, ou seja, a relação com o país tem história.
A apresentação foi encerrada com um remix de "Good Feeling", do Flo Rida — uma escolha que fecha o set com energia alta e manda todo mundo embora com aquela sensação de que valeu a pena ficar até o fim. Ou quase todo mundo, porque é preciso ser honesto: do meio para o final da apresentação, parte do público foi se esgueirando para fora da multidão. Se foi a chuva, o cansaço ou a proposta do show em si, é impossível dizer com certeza. Mas o fato está lá.
A pergunta que o festival vai ter que responder
A noite levantou uma discussão que o Rock in Rio vai precisar encarar: um DJ consegue mesmo segurar o Palco Mundo como headliner? É a primeira vez que isso acontece na história do festival, e o experimento teve seus altos e baixos. O público que ficou estava entregue, dançando cada batida, absorvido na atmosfera eletrônica que Calvin Harris construiu com competência. Isso conta muito.
Mas o material de comparação está logo ali: o Black Eyed Peas também se apresentou debaixo de chuva no mesmo festival e conseguiu segurar a multidão até o final. A pegada de uma banda com vocalistas no palco, interagindo, gritando o nome da cidade, é diferente da proposta de um DJ por trás dos equipamentos — não é uma crítica ao talento de Calvin Harris, que é real e documentado, mas uma reflexão sobre expectativa e formato. O que o público de um festival desse porte espera de uma atração principal? O festival, segundo o próprio material, pode precisar avaliar essa escolha em edições futuras.
No fim das contas, Calvin Harris entregou som, luz, hits conhecidos de cor e um carinho genuíno pelo Brasil. A história de ser o primeiro DJ headliner do Palco Mundo já está escrita. Se vai virar tradição ou curiosidade de edição, só o tempo — e a próxima lineup — vai dizer.
