Marina Sena no Rock in Rio: show místico, boneco rasgado e um recado bem dado

Marina Sena finalmente subiu ao Palco Sunset do Rock in Rio para chamar de seu e, olha, o que ela entregou foi muito mais que um show: foi uma experiência. Depois de algumas passagens como convidada — em uma delas cantando Gal Costa, em outra ao lado de Luísa Sonza —, a cantora mineira mostrou a que veio, com uma mística que só ela sabe criar. Esquece o Rock in Rio de sempre; aqui a gente estava num ritual de raízes e corações partidos.
Das raízes à transcendência
Para quem não acompanhou a ascensão de Marina de Oliveira Sena, é bom saber que ela não chegou aqui de paraquedas. Começou em Montes Claros, no grupo A Outra Banda da Lua, e depois explodiu no cenário nacional. A menina de Taiobeiras, no norte de Minas, trouxe toda essa essência para o Rock in Rio, mergulhando fundo em seu projeto mais recente, que fala sobre identidade e a força da terra natal. O show foi uma ode às suas raízes: rabeca, violões, percussões soltas e um visual que parecia saído de um ateliê de arte manual. O interlúdio com um trecho de Desentoado, do Grupo Raízes, só reforçou essa vibe — é pra arrepiar.
O que chamou atenção logo de cara foi a escolha do repertório. Marina deixou de lado o álbum Vício Inerente — que ela mesma já admitiu não amar tanto assim, gente como a gente — e trouxe os singles Taiobeiras (Folha Grande) e Carta de Maria, parceria com Rubel. Essa coragem de focar no que ressoa mais com ela no momento mostra uma artista que não tem medo de seguir a própria intuição. Teve ainda a participação do cantor venezuelano Luiz Lozano, do grupo Çantamarta, em Doçura, adicionando mais camadas a esse caldeirão de sonoridades.
O boneco da discórdia e a participação relâmpago de Céu
O momento mais teatral da noite foi a interpretação de Ouro de Tolo — pura catarse. Com um poema declamado para um pobre boneco de pano que, spoiler, não teve um final feliz, Marina jogou no ar todas as dores de um término. A cantora está recém-solteira, então a cena ficou aberta a um milhão de interpretações. Parecia um ritual de exorcismo de coração partido no meio do festival. Quem nunca quis rasgar um boneco por aí?
E como bom festival, teve convidada especial. A paulistana Céu fez uma aparição, mas foi tão breve que a gente quase piscou e perdeu. Juntas, elas cantaram Varanda Suspensa — que Marina revelou, em entrevista, ter inspirado seu maior hit, Por Supuesto — e Malemolência. Os timbres casaram muito bem, e o dueto ficou especialmente interessante. Mas o som baixo e a rapidez da participação deixaram o público disperso. Era a chance de ver duas artistas se unindo de verdade, e ficou aquele gostinho de quero mais.
O calor do povo e a mística pop que conquistou
Pra aquecer a noite chuvosa e meio fria — que de mineira não tinha nada, aliás —, Marina virou a chave e entregou hit atrás de hit: Por Supuesto, Voltei Pra Mim, Lua Cheia… A sequência final, com Carnaval e Desmitificar, foi simplesmente assombrosa. Ela revirando os olhos e o show ficando quase sobrenatural — a gente quase transcendeu junto. "Quero ver todo mundo transcendendo nessa p*rra", gritou a artista, e o público obedeceu.
O show foi a prova de que Marina Sena sabe levar sua mística de Brasil para os palcos pop mais bombados sem abrir mão de quem ela é. Dá pra ser raiz e pop ao mesmo tempo, sem perder a essência — e ela prova isso toda vez que pisa num palco.
