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Conceição Evaristo estreia como atriz e novo filme de André Novais Oliveira vira o evento do festival

Cerca de cinquenta pessoas ainda formavam fila na frente do Cine Brasília quando a sessão de "Se Eu Fosse Vivo… Vivia" já tinha começado. Com os 619 lugares ocupados e os ingressos esgotados, o pessoal esperava do lado de fora na esperança de uma desistência depois do curta que antecedia o longa. Spoiler: ninguém desistiu. No fim, parte do público entrou e se sentou no chão para acompanhar a estreia brasileira do quarto longa do cineasta mineiro André Novais Oliveira.

O sucesso repetiu o que já tinha acontecido em fevereiro, quando o filme teve sua estreia mundial na mostra Panorama do Festival de Berlim, com sessões igualmente cheias. Os chamarizes são dois e bastante evidentes: o próprio Novais, diretor de "Temporada", "Ela Volta na Quinta" e "O Dia que Te Conheci", e a escritora Conceição Evaristo, de 79 anos, que faz no longa sua estreia como atriz. Sim, a lenda da literatura brasileira agora também rouba a cena no cinema.

Uma viagem que ninguém esperava

O filme acompanha Gilberto e Jacira, um casal de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, ao longo de cinco décadas. Na juventude, os personagens são vividos por Jean Paulo Campos e Tainá Evaristo — sobrinha da escritora, num detalhe que a vida não deixaria de inventar. Já idosos, ganham os rostos de Norberto Novais Oliveira, pai do diretor e presença recorrente em seus filmes, e Conceição Evaristo.

A premissa parece simples, mas engana. O filme começa no registro cotidiano e familiar pelo qual Novais ficou conhecido e vai se deslocando, aos poucos, para o realismo fantástico até chegar à ficção científica. Quando Jacira adoece e é hospitalizada, Gilberto passa a viver acontecimentos que não consegue compreender — tempo e espaço deixam de funcionar de maneira convencional enquanto o luto se transforma em algo progressivamente estranho.

Essa mistura de cotidiano e fabulação não é novidade no cinema de Novais. Ele já havia explorado o território no curta "Quintal", exibido no próprio Festival de Brasília em 2015, em parte como resposta à ideia — registrada pelo crítico Juliano Gomes — de que o cinema negro não teria direito de fabular. A literatura fantástica de Murilo Rubião também aparece como referência declarada do diretor. O impulso decisivo para levar tudo isso a um longa, porém, veio de uma dor pessoal: a morte de sua mãe, Maria José Novais Oliveira, a Dona Zezé, em 2018. Ela também atuava nos filmes do filho. Novais contou que começou a pensar no projeto a partir do sofrimento do luto — uma experiência que, para ele, beira o realismo fantástico, o irreal. A ficção científica e o prólogo vieram depois, durante o processo, como estrutura para colar o começo e o fim da história.

Conceição Evaristo atriz: a lenda em outro território

A ideia de convidar Conceição Evaristo surgiu numa reunião da produtora Filmes de Plástico. O diretor soube na hora que era isso. O primeiro obstáculo foi conciliar a agenda da escritora; quando o convite chegou, ela disse que aceitaria porque gostava de desafios.

Para Novais, o desafio inicial foi outro: perder o medo da própria atriz. Num almoço ainda cauteloso, ele perguntou se ela toparia uma cachaça, porque o restaurante servia uma particularmente boa. Ela retrucou que ele estava achando mesmo que ela tinha cara de quem toma cachaça. Ele chamou o garçom e pediu duas. Gelo quebrado.

No set, Conceição demonstrava curiosidade sobre o funcionamento da câmera e as etapas da filmagem. As conversas chegaram até o processo de escrita, e ela chegou a pedir que Novais lhe ensinasse a fazer roteiros — o que deixou o diretor genuinamente impressionado. Ela também discutia o texto e fazia sugestões. A preparação de elenco, comandada por Kelly Pfeiffer, ainda aproximou a escritora de Norberto Novais: o diretor guarda no celular um vídeo dos dois dançando samba durante um exercício.

Essa combinação entre os dois atores mais velhos é um dos centros do filme e reforça uma característica antiga do cinema de Novais — colocar diante da câmera familiares, amigos e atores profissionais sem que a fronteira entre eles seja perceptível. Desta vez, porém, esse cotidiano familiar serve de ponto de partida para algo bem mais estranho e ambicioso. Cinema brasileiro vivo, com histórias que levam a outro nível — e Conceição Evaristo na tela para provar.

Com informações de fontes públicas, Wikipédia, YouTube, Instagram e TikTok.