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Habeas Corpus na Netflix: a série brasileira que vai te fazer maratonar e pensar

via Instagram @estianomarjorie

Se você já gritou com a Annalise Keating em How to Get Away with Murder, a premissa de Habeas Corpus vai parecer familiar: advogada brilhante vira professora e recruta estudantes perspicazes para desvendar casos nos tribunais. A comparação é inevitável, e o próprio diretor Luiz Villaça sabe disso — por isso vai logo negando a inspiração. Ele diz que a série se baseou em documentários sobre o nosso sistema judicial, citando inclusive a documentarista Maria Ramos, conhecida por investigar a Justiça brasileira em seus filmes. E faz sentido: o Brasil já tem histórias tortas que não precisam de roteiro importado.

A produção é a primeira série jurídica brasileira da Netflix e chegou ao catálogo exatamente um ano depois de How to Get Away with Murder — protagonizada pela icônica Viola Davis e estreada no Brasil em 2015 — ter deixado a plataforma. Coincidência ou não, o buraco no catálogo foi preenchido com sotaque daqui.

A trama: atentado, sala de aula e um inocente preso

No centro de tudo está Inez, advogada criminalista vivida por Marjorie Estiano. No começo do primeiro episódio, ela já entrega o que tem: braços erguidos, voz impostada, gestos calculados, troca de tom como quem muda de roupa. Villaça percebeu nos julgamentos reais que assistiu que juízes, promotores e defensores parecem estar num palco de teatro, encenando para impressionar o público — e Estiano abraça isso sem pudor. Até levar um tiro que muda tudo. O atentado a traumatiza, ela abandona a advocacia e vai para a sala de aula, mas não para ensinar teoria. Ela seleciona estudantes a dedo para, juntos, tentarem inocentar um homem preso de forma injusta.

Divide o protagonismo com Inez a personagem Marina, estudante negra e pobre interpretada por Any Gabrielly. Marina é misteriosa, carrega razões secretas para querer ajudar a advogada e ainda precisa cuidar do filho enquanto tenta desvendar as entranhas da justiça. Villaça quis retratar a imensa diferença socioeconômica e cultural que a gente vive — e a dupla Inez-Marina, branca e negra, professora e estudante de periferia, carrega esse peso de forma bastante deliberada.

Any Gabrielly sabe do que está falando

Antes de entrar no Now United — grupo musical que une artistas de vários países, no qual ela foi escalada há nove anos, quando ainda era adolescente —, Any Gabrielly cresceu em bairros da periferia de São Paulo. Fama e dinheiro vieram depois. Essa trajetória importa para entender o que ela traz para Marina. "Sou preta, nasci pobre, e já fui deixada na mão pela Justiça. Eu conhecia essa hostilidade que pessoas vulneráveis enfrentam", disse a atriz e cantora. "Muita gente não tem noção sobre as Marinas do nosso país. Ou até têm, mas não pensam nelas." Um soco no estômago, mas do tipo necessário.

O racismo que a câmera não desvia

Se How to Get Away with Murder já expunha a corrupção e os preconceitos do sistema prisional americano, Habeas Corpus vai fundo no racismo que permeia os tribunais brasileiros — e não de forma decorativa. É o coração da série. Tanto que Villaça e a equipe de roteiristas foram a campo antes de escrever uma linha sequer: ouviram voluntários do Innocence Project Brasil, consultaram casos reais e visitaram tribunais para estudar julgamentos de perto. A Netflix ainda contratou advogados para garantir a veracidade da trama. Seriedade levada a sério.

O Innocence Project Brasil, que a série coloca em cena, existe há dez anos e revisa erros do judiciário brasileiro. Faz parte de uma franquia global que já reverteu a condenação de 624 inocentes. Quando Villaça descobriu que três advogados do projeto reúnem estudantes de faculdades para buscar possíveis inocentes condenados, a faísca foi imediata. "É prato cheio para uma série", afirmou.

Estiano chega com currículo

Marjorie Estiano não chega a Habeas Corpus de mãos vazias no quesito drama jurídico. Ela já havia investigado o sistema judiciário para encarnar a socialite Ângela Diniz numa minissérie da HBO no ano passado. Antes disso, ficou famosa nas novelas da Globo e depois migrou para obras autorais e independentes. Habeas Corpus é sua primeira produção original Netflix. "Sou grata por estudar cidadania, meu país, o humano, as nossas contradições", disse. "Quero oferecer reflexões e provocações ao espectador. Me faz um ser político mais engajado." Com oito episódios para entregar isso, ela tem espaço de sobra.

Habeas Corpus não é série para passar o tempo em branco. É para maratonar, se indignar e, no fim, sair pensando em quantos inocentes o sistema engoliu enquanto a gente não estava olhando.

Com informações de fontes públicas, Wikipédia, YouTube, Instagram e TikTok.