Freddie Mercury era o rei do palco, mas odiava fazer turnês

Segura essa: se tem um show que marcou a história do Rock in Rio e da música mundial, foi o do Queen em 1985. Freddie Mercury subiu ao palco nos dias 11 e 18 de janeiro e conduziu um coro de 300 mil pessoas cantando 'Love of My Life' — um momento que arrepiou uma geração inteira e entrou de vez para o panteão da música ao vivo. O cara era pura energia, dominava o palco como ninguém, um showman nato que parecia ter nascido exatamente para aquilo: luzes, multidão, microfone na mão e o mundo inteiro prestando atenção.
Mas a biógrafa do cantor jogou uma bomba que ninguém esperava: ele odiava fazer turnês. Assim, do nada, sem rodeios. O rei do palco, o cara que vivia para a performance, não curtia nadinha a rotina de viajar de cidade em cidade, desempacotar mala em quarto de hotel e repetir o mesmo ciclo noite após noite. Parece fake news, né? Bate aquela dissonância cognitiva na hora. Mas faz todo o sentido quando a gente para para pensar com calma no que é, de fato, a vida de turnê por dentro — longe do brilho que aparece nas fotos e nos documentários.
Porque uma coisa é o que o público vê: o Freddie de capa de revista, de calção branco no palco, de vozeirão que enchia estádio sem microfone de cabecinha. Outra coisa completamente diferente é o que acontece nas horas que não estão nos holofotes. Ser Freddie Mercury por horas no palco — dar tudo, vibrar, incorporar uma figura quase mítica — e depois voltar para a solidão de um quarto de hotel qualquer, com as malas na mesma posição de sempre, sabendo que no dia seguinte vai repetir tudo em outra cidade, com outro público que vai amar igual, mas que também vai embora igual. Isso é puxado até para um deus do rock. Talvez especialmente para um deus do rock.
Farrokh Bulsara — o nome de verdade por trás da lenda — foi vocalista do Queen de 1970 até 1991 e é considerado um dos maiores cantores de todos os tempos. Essa revelação da biógrafa não diminui nada disso. Pelo contrário: só o humaniza mais. A gente tem um baita costume de transformar artistas desse porte em estátuas, em símbolos, em forças da natureza que não sentem cansaço nem tédio nem vontade de ficar em casa de pijama sem falar com ninguém. Freddie Mercury virou ícone, virou fantasia coletiva, virou a definição do que um frontman pode ser. Mas Farrokh Bulsara era uma pessoa — com suas preferências, seus limites, suas frescuras legítimas com o trabalho.
E tem algo bonito nisso. O que pra nós, fãs, era a chance do século — estar ali, no gramado do Rock in Rio, com 300 mil outras almas cantando junto — pra ele podia pesar como um fardo em determinados momentos. Não o palco em si, porque aí o bicho acordava e entregava tudo. Mas o entorno, a máquina, a engrenagem que girava sem parar: avião, hotel, soundcheck, entrevista, show, avião, hotel de novo. Quem nunca bateu nessa parede com o próprio trabalho que atire a primeira pedra.
E sabe o que essa revelação muda no legado de Freddie? Absolutamente nada. O cara entregou tudo de si no palco mesmo sem amar cada segundo da vida de rockstar. O coro de 300 mil almas no Rock in Rio em janeiro de 1985 prova isso de sobra. 'Love of My Life' ecoando por aquele gramado é uma das imagens mais poderosas da história dos shows ao vivo no Brasil — e ela aconteceu mesmo que, nos bastidores, Freddie preferisse estar em qualquer outro lugar que não fosse dentro de mais uma turnê. No fim das contas, até o maior frontman da história tinha esse pensamento. O que o separava da maioria era que, quando as luzes acendiam, ninguém conseguia perceber.
