Alok defende o pen-drive no Rock in Rio: 'Sei que dá raiva', mas a verdade é essa

Minutos antes de subir ao Palco Mundo do Rock in Rio, nesta sexta-feira, 11, Alok resolveu abrir o jogo sobre um dos maiores dilemas da cena eletrônica contemporânea: o famigerado pen-drive. Sim, ele usa. Confessou sem rodeios, sem pedir desculpa e, de quebra, com bom humor suficiente para deixar qualquer purista de vinil com o monóculo caindo.
O debate não é novo. Há anos a comunidade de DJs trava uma guerra silenciosa — e às vezes nem tão silenciosa — sobre o que separa um artista de verdade de alguém que apenas aperta play. O vinil virou símbolo de autenticidade; o pen-drive, de conveniência suspeita. Alok, no entanto, tem uma resposta prática para isso: o show dele não cabe no vinil. Literalmente.
O problema é técnico antes de ser estético. O set de Alok roda em time code — um sistema de sincronização que amarra a música a todos os outros elementos da apresentação: a iluminação, os efeitos, os drones e o telão de 2.500 metros quadrados do Palco Mundo. Tentar executar essa estrutura no vinil não seria uma escolha artística corajosa; seria um colapso logístico em tempo real. "É verdade, usamos pen-drive. Hoje em dia, para poder fazer o meu show, que está em time code, não tem como fazer no vinil", explicou.
Mas Alok foi além da justificativa técnica. Ele tocou no ponto que, no fundo, é o que a discussão toda deveria ser: a ferramenta não faz o artista. "Se eu der meu pen-drive para alguém, não significa que ele vai se tornar um Alok. Sei que dá raiva, mas é a ferramenta que temos." É a frase que resume tudo — e que vai continuar circulando na internet muito depois que o festival acabar. Um pen-drive na mão de qualquer um é só um pen-drive. O que muda é quem está do outro lado, tomando as decisões, construindo o espetáculo.
E o espetáculo em questão tem nome e propósito. No Rock in Rio, Alok apresentou o Keep Art Human, projeto que estreou em abril, na Califórnia, e que ele define como um manifesto artístico. O tema central é o avanço acelerado da inteligência artificial na arte — e a pergunta que fica suspensa no ar: o que sobra para os humanos quando as máquinas aprendem a criar?
O tom de Alok sobre o assunto não foi de otimismo fácil. Ele enxerga poucas perspectivas positivas para as novas gerações diante desse cenário, e foi direto ao criticar a dinâmica que se instalou: "Não há uma perspectiva positiva sobre o futuro para as novas gerações. E estão dando uma responsabilidade para eles, como se fosse: destruímos o mundo e agora vocês que resolvam." Pesado — e, considerando que a discussão sobre IA na arte está longe de ser ficção científica, bastante pertinente.
No palco, o Keep Art Human ganhou forma concreta: show de drones sincronizados, o telão gigante do Palco Mundo e a participação dos dançarinos do grupo italiano Urban Theory. Uma demonstração prática, quase paradoxal, de como a tecnologia pode ser colocada a serviço da arte humana em vez de substituí-la. Drone, telão, time code — tudo tecnologia. Tudo ferramenta. E a mensagem que ficou entre uma batida e outra foi exatamente essa: o que importa não é o dispositivo, é quem decide o que fazer com ele.
Alok é um dos nomes mais relevantes da música eletrônica no mundo, e o Rock in Rio foi o palco escolhido para reafirmar isso — não só com volume e pirotecnia, mas com um posicionamento sobre o tipo de artista que ele quer ser numa era em que a IA avança rápido e as perguntas sobre autenticidade ficam cada vez mais complicadas de responder. O pen-drive, no fim das contas, é quase uma piada interna: a ferramenta mais simples possível carregando um dos shows mais complexos do festival.
