A treta que a mídia criou: Sandy abre o jogo sobre rivalidade com Wanessa Camargo

Imagina só: você e uma amiga de infância, cujos pais trabalham na mesma área e se conhecem há décadas, de repente viram 'inimigas' na capa de todas as revistas. Parece roteiro de filme adolescente, mas foi a realidade de Sandy e Wanessa Camargo por um bom e longo tempo. Sandy Leah Lima, hoje com 43 anos, abriu o coração sobre a rivalidade que a mídia construiu entre as duas durante sua participação no programa Saia Justa.
Para entender o tamanho da ironia, vale lembrar quem são essas pessoas fora dos tabloides. Sandy é filha de Xororó e formou com o irmão Junior Lima uma das duplas mais bem-sucedidas da história da música brasileira. A notoriedade veio cedo — ainda na infância, os dois apareceram no Som Brasil, em 1989, e saíram de lá com contrato na mão. Nos anos seguintes, Sandy & Junior se tornaram recordistas em vendas de álbuns no Brasil, dominaram os anos 1990 e boa parte dos 2000, e só encerraram a dupla em 2007. Em 2019, voltaram para a turnê comemorativa Nossa História, que foi um sucesso de público e crítica — porque algumas coisas boas não envelhecem, envelhecem só as matérias que tentaram complicar o que era simples.
Já Wanessa Camargo, filha de Zezé Di Camargo, chegou à cena pop no início dos anos 2000 com uma energia diferente. Assinou com a BMG e lançou três álbuns homônimos seguidos — em 2000, 2001 e 2002 — todos certificados com ouro pela Pro-Música Brasil. Os singles foram grudando: 'O Amor Não Deixa', 'Eu Quero Ser o Seu Amor', 'Sem Querer'. Em 2004, lançou o primeiro álbum ao vivo, Transparente Ao Vivo, e ainda dividiu espaço como apresentadora no Jovens Tardes, da TV Globo. Ou seja: duas artistas construindo carreiras sólidas, cada uma com o seu caminho. Mas carreira sólida não vende capa de revista — barraco sim.
O problema, como Sandy explicou, é que a mídia da época enxergou nas duas uma oportunidade perfeita para fabricar um confronto. Quando Sandy tinha uns dezessete anos e Wanessa despontou no cenário nacional, a imprensa percebeu que as imagens das duas podiam ser lidas como 'opostas' — e não desperdiçou a deixa. Saíram matérias, capas, rótulos colados nas duas sem que nenhuma delas tivesse pedido. Sandy de um lado com uma imagem mais discreta; Wanessa do outro com um pop mais ousado e coreografias que chamavam atenção. Estava armado o cenário perfeito para quem precisava de drama: como se só uma pudesse brilhar se a outra ficasse na sombra.
O mais cruel dessa dinâmica toda é que, nos bastidores, a realidade era completamente diferente. Sandy lembrou que as duas se viam com frequência justamente por causa da proximidade entre os pais — Xororó e Zezé Di Camargo são colegas da mesma área musical, e isso aproximava as famílias naturalmente. Havia carinho de verdade nesses encontros. E então chegava a narrativa externa e instalava um desconforto que não vinha de dentro da relação. 'Foi muito triste isso', disse Sandy, 'porque a gente se encontrava nos bastidores, nossos pais são colegas da mesma área musical. A gente se dava bem, tinha um carinho... E depois, quando crescemos, veio tudo isso de fora para dentro, e durou anos!'.
Essa lógica de rivalidade fabricada entre mulheres talentosas não é exclusividade do pop brasileiro dos anos 2000 — é um padrão que o entretenimento mundial repetiu à exaustão, e que a gente ainda vê variações até hoje. A diferença é que, com o tempo, ficou mais fácil nomear o que era aquilo: não uma briga real, mas um produto editorial que usava duas pessoas de carne e osso como personagens sem pedir licença.
A confissão de Sandy no Saia Justa não tem nada de novidade escandalosa — e talvez seja exatamente por isso que ela importa. É o relato direto de alguém dizendo: aquela história que vocês leram nas revistas não era a nossa história. E pensar que as duas só queriam fazer a gente cantar junto.
