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Tom Zé completa 90 anos com agenda cheia e reflexões sobre a carreira

Tom Zé está completando 90 anos neste domingo, 11 de outubro de 2026, e a agenda não está para brincadeira. O artista tem compromissos que vão desde uma exposição na Caixa Cultural São Paulo e o lançamento de uma nova biografia até shows no Sesc Pompeia, no Rio de Janeiro, no Circo Voador e no Festival Saravá, em Florianópolis.

O músico também prepara a chegada de um álbum de músicas inéditas, que já teve a faixa Futuro Fruto adiantada. Além disso, há o lançamento de um disco da série Relicário, do Sesc, que resgata a gravação de um show feito por ele há 30 anos.

Tom Zé é um dos pilares da Tropicália, movimento no qual teve papel ativo. Ele compôs Namorinho de Portão, gravada por Gal Costa, e sua música Astronauta Libertado acabou virando a canção 2001, interpretada por Rita Lee e Os Mutantes. O artista também aparece na capa do icônico disco Tropicália ou Panis et Circencis, de 1968, onde canta Parque Industrial, além de ter assinado a faixa Jimmy, Renda-Se.

Entre a política e a censura

Mesmo com a festa, o clima político não deixa o artista tranquilo. Tom Zé comentou que ficou de boca aberta com os resultados do primeiro turno das eleições, pois esperava outro resultado: todo mundo estava certo de que Lula seria eleito e, na apuração, deu meio que empate. Ele diz que a família Bolsonaro, apologista do regime militar, está próxima de tomar o poder novamente.

Essa relação com a repressão não é nova. O cantor foi preso duas vezes durante a ditadura militar. Uma das prisões ocorreu via Dops e a outra pela polícia comum, logo depois do casamento com Neusa Martins, com quem é casado desde 1970. Na segunda ocasião, Neusa passou dias sem saber onde ele estava. O motivo da detenção foi a descoberta de uma ponta de cigarro de maconha em uma frasqueira, após terem revirado o apartamento dele. Tom Zé conta que experimentou a erva, mas nunca gostou de fumar.

No início dos anos 1960, ele também atuou como diretor de música do Centro Popular de Cultura em Salvador, instituição financiada pelo Partido Comunista. No entanto, ele nega ter sido comunista, questionando a ideia de trocar a dependência dos Estados Unidos pela da Rússia e criticando como qualquer pessoa que buscasse liberdade era rotulada como de esquerda na época.

A cidade como personagem e a poesia concreta

O trabalho de Tom Zé sempre trouxe a cidade para o centro da cena. No álbum Todos os Olhos, de 1973, a música Poluição descreve a consciência podre da cidade em meio ao lixo e à fumaça. O artista explica que criou discos inteiros baseados em temas urbanos, inspirando-se no que lia nos jornais sobre a sujeira e a tentativa de civilizar os espaços.

Ele utiliza o antropomorfismo em suas letras, tratando ruas de São Paulo como mulheres em Augusta, Angélica e Consolação e dando características humanas a prédios em A Briga do Edifício Itália com o Hilton Hotel, obra de 1972. Tom Zé admite que esse estilo foi influenciado por Adoniran Barbosa, chegando a classificar a técnica como um plágio formal das músicas dele.

Outro ponto forte é a experimentação com a poesia concreta. Na música Menina Amanhã de Manhã, que trata da propaganda e da ditadura, a canção começa com esperança e termina em um jogo de palavras que ele chama de quase putaria, desconstruindo a palavra felicidade através de vogais. Essa abordagem também bebeu da fonte de Jackson do Pandeiro, que já brincava com as vogais na música Sebastiana, de 1953.

Do ostracismo ao reconhecimento

Nem tudo foi sucesso imediato. Após o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, Tom Zé se sentiu isolado. No documentário Fabricando Tom Zé, ele revelou mágoas em relação aos dois, e Caetano chegou a admitir a culpa por ter deixado o parceiro no esquecimento. Hoje, porém, Tom Zé afirma que o assunto está superado, declarando-se admirador do trabalho de ambos.

Entre 1969 e 1993, o músico não chegou a tocar no Rio de Janeiro e passou por um período de vacas magras, fazendo shows para universitários no interior e buscando menções aos seus discos nos jornais. Foi nessa fase que ele gravou álbuns que hoje são aclamados, como Estudando o Samba (1976), Nave Maria (1984) e o já citado Todos os Olhos.

Esses trabalhos primeiro foram reverenciados pela crítica internacional, incluindo o interesse de David Byrne nos anos 1980, para só depois serem valorizados no Brasil. Tom Zé resume esse período de ostracismo dizendo que a vida é assim e que, como os discos voltaram e ele passou a ser ouvido no exterior e novamente em casa, tudo está resolvido. Para ele, o interesse estrangeiro é fruto de uma curiosidade por sua música ser diferente.

Quem diria que ser o diferentão daria tanto certo no final das contas?

Com informações de fontes públicas, Wikipédia, YouTube, Instagram e TikTok.