Mostra de São Paulo completa 50 anos combatendo a ditadura do algoritmo

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo chega à sua 50ª edição com a mesma premissa de 1977: o público é o júri. O que começou como um desafio à repressão da ditadura militar agora encara um adversário diferente: as métricas de engajamento e os algoritmos que decidem o que a gente deve consumir.
O evento, fundado por Leon Cakoff no auditório do Masp, nasceu sob censura e já exibia filmes proibidos, como o documentário A Batalha do Chile. A trilogia de Patricio Guzmán, que morreu em setembro, volta agora em cópias restauradas. Para quem vive em São Paulo ou passa pela cidade, o festival virou um ritual. Os chamados mostreiros encaram maratonas de quatro filmes por dia, almoçando pão de queijo na fila para não perderem a próxima sessão e calculando cada minuto de deslocamento entre os cinemas.
O anti-algoritmo da tela grande
Com 380 produções de 92 países, a programação aposta no inesperado. A ideia é tirar o espectador da bolha do Instagram, onde o gosto é protegido por algoritmos, e jogá-lo em situações imprevisíveis, como encarar um filme iraniano de três horas ou uma fantasia americana independente. Marina Person, que lançou a série documental Viva o Cinema! na HBO Max sobre a história do evento, define a Mostra como um anti-algoritmo, pois apresenta obras que o público nem sabia que existiam, mas que podem adorar.
O curador Jonas Chadarevian, que trabalha ao lado da diretora Renata de Almeida, explica que a sobrevivência do festival depende do equilíbrio entre o pop e o alternativo. Filmes com nomes conhecidos servem de porta de entrada para que as pessoas acabem assistindo a produções menos badaladas. Isso acontece porque as redes sociais, embora criem burburinho, também geram o medo de ficar por fora, o famoso fear of missing out, concentrando a atenção apenas nos filmes mais concorridos que já têm caminho certo para o circuito comercial.
Nomes de peso e tesouros escondidos
Nesta edição, o destaque fica para Robert Pattinson em Primetime, além de Fjord e Mulher Desconhecida, que foram premiados em Cannes e Veneza. A programação ainda traz Amor Possível, do sul-coreano Lee Chang-dong, Look Back, de Hirokazu Koreeda, e Tigre de Papel, de James Gray. O diretor americano, mestre do melodrama, desembarca em São Paulo para a abertura do evento, prevista para esta quarta-feira, 14 de outubro, com um filme estrelado por Adam Driver e Scarlett Johansson.
Outras presenças internacionais incluem o diretor indiano S.S. Rajamouli, que ficou famoso mundialmente com RRR - Revolta, Rebelião, Revolução em 2022, e o americano Boots Riley. Para os cinéfilos mais dedicados, há obras de Jia Zhangke, com Torino Shadow, e Hong Sang-soo, com Onde Repousar Meus Olhos e O Dia em que Ela Volta. A lista se estende a clássicos como o centenário Aurora, de Artavazd Pelechian, e produções de Paulo Branco, incluindo trabalhos de Manoel de Oliveira, João César Monteiro, Raúl Ruiz e Chantal Akerman.
A arte do cartaz e a comunidade
Além das telas, a Mostra se manifesta visualmente através de seus cartazes anuais. Cada edição é marcada por uma arte criada por cineastas ou artistas, como Akira Kurosawa, Martin Scorsese, Wim Wenders, Satyajit Ray, Tomie Ohtake, Ziraldo e Christiane Kubrick. Para comemorar as 50 edições, todos esses cartazes foram reunidos em um livro comemorativo com páginas destacáveis, feito para quem quer transformar a parede em uma galeria de cinema.
Esse senso de comunidade atrai inclusive o público jovem. Chadarevian observa que há gente jovem e empolgada querendo ver clássicos restaurados, e diz que o público do evento cresce a cada ano. A agitação provocada pela Mostra, que movimentava as calçadas já na época da ditadura, continua sendo essencial para manter o circuito de cinema aquecido, mesmo em fases difíceis.
Será que a gente ainda tem paciência para um filme de três horas ou o Reels já fritou nosso cérebro demais?
