Marisa Orth estrela filme erótico aos 62 anos e levanta debate sobre sexualidade na maturidade

Marisa Orth agitou a internet ao revelar que, aos 62 anos, protagonizou um filme erótico. A produção será lançada em uma plataforma de conteúdo adulto, mas o que realmente gerou debate não foi apenas o projeto em si, e sim a imagem de uma mulher madura se colocando no lugar de quem sente desejo e mantém uma vida sexual ativa.
Marisa Orth é uma atriz, cantora, comediante e apresentadora brasileira, formada em psicologia e interpretação, reconhecida por suas atuações na televisão.
O mito da aposentadoria sexual
O espanto com a notícia reflete como a sociedade costuma encarar a sexualidade feminina após a menopausa. Geralmente, esse período é tratado sob a ótica da perda: perda de estrogênio, de libido, de lubrificação e de parceiros, como se a última menstruação trouxesse automaticamente uma aposentadoria sexual.
A sexóloga e psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da USP, explica que existe uma cultura que ignora a necessidade de vida sexual após a fase reprodutiva. Para ela, a ideia de que a mulher pode fazer sexo por puro prazer ainda é recente, o que alimenta preconceitos e questionamentos absurdos sobre a finalidade do sexo nessa fase da vida. Esse pensamento se torna ainda mais incoerente diante da longevidade atual, já que muitas mulheres vivem décadas após a menopausa.
Biologia e a importância do tratamento
A biologia impõe desafios, mas eles não significam o fim do prazer. A queda do estrogênio pode causar a síndrome geniturinária da menopausa (SGM), que afeta a vulva, a vagina e o trato urinário. Os sintomas incluem ressecamento vaginal, ardência e dor durante a relação. Segundo Carmita Abdo, isso pode criar um ciclo onde a mulher evita o sexo por causa da dor e, consequentemente, interpreta esse afastamento como perda de desejo ou desinteresse.
A boa notícia é que existem tratamentos para a SGM, como o uso de hidratantes, lubrificantes vaginais e terapias hormonais, sempre com avaliação médica. A sexóloga também menciona tratamentos a laser, embora ressalte que eles ainda são inacessíveis para a maioria das brasileiras. Além da parte genital, a transição da menopausa pode trazer insônia, calores e até aumento de depressão, o que impacta a disposição geral e, por tabela, o interesse sexual. Por isso, tratar esses sintomas precocemente é fundamental para manter a qualidade de vida e a libido.
O que dizem os dados sobre o desejo
Para derrubar estereótipos, um estudo da Mayo Clinic, nos Estados Unidos, com 3.465 mulheres sexualmente ativas de 50 anos ou mais, trouxe dados interessantes. Entre as mulheres com 65 anos ou mais, 33,4% relataram perda de desejo sexual, enquanto entre as de 50 a 64 anos, esse número foi maior, chegando a 47,6%.
O estudo também mostrou que as mulheres mais velhas relataram menos sofrimento relacionado à vida sexual e que não houve diferença significativa entre as faixas etárias em relação a dores, secura vaginal ou dificuldades de orgasmo e excitação. Embora os dados não permitam concluir que o desejo aumenta com a idade, eles questionam a associação automática de que envelhecer significa necessariamente ter menos desejo.
Desejo espontâneo vs. desejo responsivo
Outro ponto essencial para entender a sexualidade na maturidade é a diferença entre os tipos de desejo. Em relacionamentos longos, é comum que o desejo espontâneo — aquela vontade que surge do nada — seja substituído pelo desejo responsivo.
Nesse modelo, a vontade não precede a ação. A mulher começa a interação íntima sem estar necessariamente tomada pelo desejo, mas, através de carícias, beijos e estímulos, a excitação surge e a vontade de continuar aparece. Essa resposta sexual, estudada pela pesquisadora Rosemary Basson, mostra que a intimidade e a excitação não seguem necessariamente uma linha reta.
Carmita Abdo reforça que, para quem quer manter a vida sexual, não se deve esperar pelo desejo espontâneo, que pode ser esporádico. O prazer e a vontade podem chegar durante o estímulo. É importante diferenciar isso de fazer sexo por obrigação ou contra a vontade; o desejo responsivo acontece quando há abertura e interesse na experiência.
Quem diria que a gente precisava de um manual para lembrar que tesão não tem prazo de validade?
