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Arlete Salles encara o desafio de ficar sozinha no palco em nova peça

Arlete Salles, uma das figuras mais consagradas da teledramaturgia brasileira, está encarando um desafio inédito em sua longa trajetória: atuar sozinha no palco. A estreia no formato solo acontece em Mande Notícias do Mundo de Lá, espetáculo escrito e dirigido por Carlos Jardim. A montagem reestreia no Teatro Renaissance, em São Paulo, a partir de 17 de outubro.

Arlete Salles é uma atriz brasileira que iniciou sua carreira na década de 1950, tornando-se referência nos palcos e nas telas ao longo de décadas de atuação.

O peso do silêncio e do solo

Depois de seis décadas dividindo a cena com grandes elencos, a mudança para um monólogo exigiu que a atriz recalibrasse sua bússola artística. Para quem construiu a carreira baseada na agilidade do diálogo e na precisão do jogo coletivo, a ausência de outros atores em cena traz a necessidade de modular o humor e a gravidade sem ter o tempo de resposta de um parceiro.

Salles confessou que hesitou ao receber o convite, mas que a experiência tem sido recompensadora. Aos 88 anos, ela afirma estar descobrindo diariamente que o monólogo oferece um empoderamento e exige uma resistência específica do ator. Para ela, a experiência é enriquecedora, seguindo a ideia de que se aprende até o final da vida, embora não tenha planos de fazer um segundo trabalho nesse formato.

Entre o caixão e o Abba

A peça, com duração de uma hora e dez minutos, apresenta a personagem Eulália Eugênia. Ela é uma mulher vivaz que sofre de um pavor crônico da finitude. A trama se desenvolve quando Eulália chega a uma capela mortuária para se despedir de Rosimere, sua companheira de vida, e descobre que o velório está completamente vazio. Diante do abandono da amiga, ela decide falar com a urna.

O que poderia ser um momento puramente solene é subvertido por diálogos que trazem à tona picuinhas cotidianas acumuladas por décadas. Em vez de preces, o luto é embalado por comentários sobre o figurino duvidoso da falecida, o excesso de perfume adocicado, a qualidade da sangria e a persistência em eleger o estrogonofe como banquete refinado desde os anos 1980.

Essa abordagem transforma a futilidade dos comentários em um escudo contra o desespero, equilibrando ironia e desamparo. No palco, Arlete Salles transita entre confissões e tiradas cáusticas, quebrando a rigidez do ambiente. Em um dos momentos de catarse, a personagem chega a dançar ao som de Abba, ignorando a solenidade da vigília.

A estética do minimalismo

O diretor Carlos Jardim, que tem experiência em telejornalismo e documentários, optou por uma cenografia limpa. O cenário é restrito ao esquife e a cadeiras desocupadas, seguindo a premissa de que o texto é direto e econômico. Para o diretor, limpar os excessos era o caminho natural para concentrar toda a atenção na vitalidade da atriz.

Jardim destaca que Arlete Salles é mestre no uso de pausas e entonações para valorizar o humor, conduzindo o público entre diferentes estados emocionais. Segundo ele, o uso do humor é a ferramenta mais eficiente para tocar a emoção e instigar a reflexão sobre tabus como a velhice e a morte, que geralmente assustam as pessoas.

Embora a identificação com a passagem dos anos seja palpável, Salles mantém uma disciplina rígida sobre a fronteira entre a vida pessoal e a personagem. Ela explica que, mesmo vivendo momentos semelhantes no cotidiano, seu foco total no palco é a Eulália, sem espaço para ponderações privadas.

A montagem conta ainda com a luz de Sarah Salgado, figurinos de Antônio Rocha e a direção musical de Liliane Secco. O título da peça é uma referência à canção de Milton Nascimento e Fernando Brant. No fim, a obra transforma o rito de passagem e a despedida em uma afirmação luminosa da vida.

Com informações de fontes públicas, Wikipédia, YouTube, Instagram e TikTok.